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Turcos gays passam por humilhação para escapar do Exército

30 abr

Parada do orgulho gay em Istambul foi algo inédito entre países muçulmanos (Foto: BBC)Parada do orgulho gay em Istambul foi algo inédito
entre países muçulmanos (Foto: BBC)

O serviço militar é obrigatório na Turquia para homens com mais de 20 anos, mas é possível escapar caso eles apresentem provas de algum tipo de doença, deficiência ou provem que são homossexuais.

No entanto, para provar a homossexualidade é preciso passar por uma situação humilhante.

‘Eles me perguntaram quando tive a primeira relação anal, (se pratico) sexo oral e com que tipo de brinquedos eu brincava quando era criança’, disse Ahmet, um jovem de cerca de 20 anos.

Na primeira oportunidade depois que foi convocado, durante os exames de saúde, Ahmet disse aos militares que era gay.

‘Eles me perguntaram se eu gostava de futebol, se eu usava roupas ou perfume de mulheres’, disse. ‘Eu estava com a barba por fazer há alguns dias e sou um gay mais masculino. Eles me falaram que eu não parecia um homem gay normal.’

Os militares pediram que Ahmet fornecesse uma foto em que aparecesse vestido de mulher.

‘Recusei este pedido. Mas fiz outra oferta, que eles aceitaram’, disse o jovem que deu aos militares uma foto dele beijando outro homem.

‘Certificado rosa’
Ahmet espera que esta foto garanta o fornecimento do chamado ‘certificado rosa’: este documento declara que um homem é homossexual e, por isso, isento do serviço militar.

Nos últimos anos, os homossexuais ganharam mais visibilidade na cidades maiores da Turquia. Cafés e casas noturnas com clientes abertamente gays foram inauguradas em Istambul e, no ano passado, ocorreu uma parada do orgulho gay, algo único no mundo muçulmano.

Mas, apesar de não haver leis específicas contra os homossexuais na Turquia, gays assumidos não são bem-vindos no Exército. E, ao mesmo tempo, eles precisam ‘provar’ que são homossexuais para evitar o serviço militar.

Gokhan, convocado no final da década de 1990, percebeu rapidamente que ele não tinha vocação para permanecer no Exército. ‘Tinha medo de armas’, disse.

E sendo gay, ele também temia sofrer bullying. Depois de um pouco mais de uma semana, ele declarou sua orientação sexual ao comandante.

‘Eles me perguntaram se eu tinha alguma fotografia. E eu tinha’, afirmou Gokham.

Ele tinha se preparado com fotos explícitas que mostravam ele mantendo relações sexuais com outro homem. Isto foi necessário pois Gokham tinha ouvido que seria impossível sair do serviço militar sem as fotos.

‘O rosto deve estar visível. E as fotos devem mostrar você como o passivo’, disse.

Os militares aceitaram a foto, Gokham recebeu o certificado rosa e foi isento do serviço militar. Mas ele lembra que a experiência foi terrível.

‘E ainda é terrível. Pois alguém fica com estas fotografias. Eles podem mostrá-las no meu vilarejo, para os meus pais, meus familiares.’

Teste de personalidade
Homossexuais da Turquia afirmam que a natureza das provas exigidas depende da vontade do médico militar ou do comandante. Em algumas vezes, em vez de fotografias, os médicos fazem um ‘teste de personalidade’.

O Exército turco recusou os pedidos de entrevista da BBC, mas um general aposentado, Amagan Kuloglu, aceitou comentar estas regras.

Segundo o general, gays assumidos no Exército causariam ‘problemas disciplinares’ e seria pouco prático criar ‘instalações separadas, dormitórios separados, chuveiros, áreas de treinamento’.

Kuloglu afirma que, se um homem gay mantiver a sexualidade em segredo, ele poderá servir, algo semelhante à política dos militares americanos em vigor até 2011, a chamada política do ‘não pergunte, não conte’ (don’t ask, don’t tell, em inglês).

‘Mas, quando alguém se revela gay, então o Exército precisa ter certeza de que ele realmente é gay e não está simplesmente mentindo para escapar do dever de servir aos militares’, afirmou.

O estigma social associado à homossexualidade na Turquia é grande. Fora das grandes cidades como Istambul e Ancara, é difícil imaginar um homem declarando que é gay quando na verdade ele não é.

No entanto, esta possibilidade ainda gera ansiedade entre os militares.

‘Os médicos estão sendo muito pressionados pelos comandantes para diagnosticarem a homossexualidade, e eles obedecem mesmo que não existam ferramentas de diagnóstico para determinar orientação sexual’, disse um psiquiatra que trabalhava em um hospital militar. ‘É impossível, em termos médicos, e não é ético.’

‘Distúrbio psicossexual’
No certificado rosa de Gokham consta ‘distúrbio psicossexual’ e, perto destas palavras, entre parênteses, ‘homossexualidade’.

Os hospitais militares da Turquia ainda definem a homossexualidade como uma doença, usando uma versão de 1968 de um documento da Associação Americana de Psiquiatria como guia.

Algumas pessoas na Turquia afirmam que os gays do país na verdade têm sorte, pois pelo menos eles conseguem escapar do serviço militar. Não precisam passar meses nos quartéis ou enfrentar a possibilidade de serem enviados para lutar contra militantes curdos.

Mas, para os gays assumidos do país, a vida está longe de ser fácil.

Não é raro que empregadores do país perguntem aos candidatos a um emprego sobre o serviço militar e um certificado rosa pode significar rejeição.

Um dos empregadores de Gokham descobriu sobre sua sexualidade sem perguntar a ele. O empregador perguntou diretamente ao Exército.

Depois disso, Gokham sofreu bullying, os colegas faziam comentários quando ele passava, outros se recusavam a conversar com ele.

‘Mas não tenho vergonha. Não é uma vergonha minha’, disse.

O caso de Ahmet ainda não foi resolvido. O Exército adiou por outro ano a decisão sobre o certificado rosa.

Ahmet acredita que isto está acontecendo porque ele se recusou a aparecer para os militares usando roupas de mulher e ele não sabe o que vai acontecer quando comparecer frente aos militares de novo.

Ele afirma que não poderia simplesmente cumprir o serviço militar e manter sua sexualidade em segredo.

‘Sou contra todo o sistema militar. Se tenho que cumprir com algum dever para esta nação, eles deveriam me dar uma escolha não militar’, disse.

No Brasil, não há nenhuma lei que estabeleça que homossexuais não possam prestar o serviço militar.

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Publicado por em 30 de abril de 2014 em Brasil

 

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